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É um enorme desafio querer fazer rádio arte no Brasil.
E, acredito que este desafi o existe e sempre existirá porque, como diz o esteta finlandês Harri Huhtamaki,2 "Rádio é jogo. Brincar com fogo. É perigoso - a gente quase sempre queima os dedos. Mas essa é a graça do jogo".
Felizmente há no Brasil algumas pessoas dispostas a entrar apaixonadamente nesse jogo arriscado e instigante. Pessoas dispostas a não só "queimarem os dedos", como também incendiar a alma. No Brasil, os criadores acústicos, os "caçadores perdidos do som", os radiomakers encontram-se espalhados dentro e fora dos espaços institucionais, em algumas poucas rádios educativas e universitárias (públicas e particulares), em rádios livres, em estúdios particulares e em alguns espaços alternativos.
Normalmente, são jovens estudantes universitários, compositores, criadores sonoros, sound designers e professores que desejam investigar e buscar outros modos de organização do discurso sonoro. Existe hoje no Brasil uma busca, por parte de algumas poucas pessoas, por um novo conceito de rádio e por um novo conceito de sonoridade no rádio e, principalmente, por um trabalho que provoque novos modos de escuta, novos modos de ser, novos leques de afetos e novas formas de expressão.
*** Apesar de haver mais de 350 rádios educativas no Brasil e aproximadamente 60 rádios universitárias - espaço ideal para a transmissão de radio arte -, estas convivem com um orçamento reduzido que dificulta a promoção, realização e criação de obras radiofônicas nos moldes europeus, apesar do esforço isolado de alguns compositores, criadores sonoros, professores e pesquisadores universitários. Por outro lado, algumas experiências com estudantes e professores universitários nos ensinaram que somente por um ato de vontade pessoal é possível criar, investigar, experimentar, ousar.
No mercado de trabalho infelizmente eles estarão, talvez, impedidos de criar. Essa é a nossa tragédia ou o traço mais gritante de nosso subdesenvolvimento. E o problema estrutural não é a falta de uma política cultural, mas, acredito, o excesso do saber especializado, paradoxalmente superfi cial e não-relacional. Jornalista é jornalista, músico é músico, técnico de som é técnico de som, poeta é poeta, produtor é produtor. E a invenção, a criação exige uma mente aberta, ou melhor, ouvir os outros que somos, pois caso contrário, não há efetiva investigação.
As experiências artísticas em rádio no Brasil começam na década de 70 com a realização de seminários e concursos de peças radiofônicas e com a colaboração e o apoio do Instituto Goethe, Grupo Opinião e Fundação Konrad Adenauer. Como resultado desta iniciativa, os dramaturgos Fernando Peixoto, Germano Blum e João das Neves foram convidados a estudar o gênero peça radiofônica na Alemanha (Westdeutscher Rundfunk - WDR, Colônia). Em 1985, já com a realização do IV Concurso Brasileiro de peças radiofônicas, a peça Noturno a duas vozes, escrita, gravada e produzida pela dramaturga Heloiza Bauab, foi premiada em primeiro lugar.
O certame foi promovido pela Fundação Padre Anchieta - Rádio Cultura FM e pela WDR de Colônia. Bauab recebeu da Fundação Konrad Adenauer, uma das promotoras do concurso, uma bolsa para estagiar por um ano na emissora alemã. Coordenou, ainda, o projeto AUdioFICções&ritMOS, núcleo de Linguagem Radiofônica das Oficinas Culturais Três Rios.
Outra contribuição importante trata-se da musicista e radiomaker Regina Porto, que trabalhou 11 anos na Radio Cultura FM de São Paulo e que foi comissionada, em 2002, para fazer a peça Metrópole - São Paulo, um retrato acústico da cidade de São Paulo, para a WDR. Ressalto, aqui, também, as importantes produções radiofônicas de Julio de Paula, Roberto D´Ugo, Cynthia Gusmão, entre outros, da Rádio Cultura FM de São Paulo. No Rio de Janeiro, temos o reconhecido trabalho de Lilian Zaremba, produtora do programa Rádio Escuta, produzido e apresentado pela Rádio MEC, além da importante organização e publicação de três edições da coletânea Rádio Nova - constelações da radiofônica contemporânea, contendo textos e experiências de pesquisadores e artistas brasileiros e estrangeiros.
Temos, ainda, iniciativas inquietantes nos domínios do rádio comunitário com Mauro Costa, professor da UERJ, Rio de Janeiro, com o trabalho desenvolvido na Rádio Kaxinawá FM, integrando a Faculdade de Educação da Baixada Fluminense. Mais recentemente, em 2003, surge o Núcleo de Rádio Arte, um coletivo de pesquisa e produção radiofônica que desenvolve projetos nas áreas de documentação, radiodramaturgia, ecologia sonora e design de som.
A radialista e idealizadora, Francisca Marques, juntamente com alunos do curso de RTV das Faculdades Jorge Amado (Salvador), obtiveram trabalhos premiados no Expocom/Intercom em 2004 e 2005 na categoria de melhor programa de rádio. A partir de 2005, o Núcleo de Rádio Arte migrou para o Laboratório de Etnomusicologia, Antropologia e Áudio (LEAA/Recôncavo), em Cachoeira, Bahia onde atualmente desenvolve pesquisa e projetos de arte digital e educação comunitária em parceria com o Young Digital Creators/UNESCO. E eu também, que fui convidada pela WDR - Studio Akustische Kunst para realizar o projeto Stratosound - um retrato acústico do pesquisador e performer da voz egípcio-grego-italiano Demetrio Stratos. Em seguida, no ano de 1999, a DeutschlandRadio de Berlin convidou-me para desenvolver a peça de arte acústica intitulada "Brasil Universo" em parceria com o músico brasileiro Hermeto Pascoal e com a co-produção da WDR de Colônia.
Finalmente, é importante lembrar e ressaltar o trabalho de dramaturgos que buscam a renovação da linguagem radiofônica, entre eles, destacamos Bosco Brasil, Sylvia Lohn, Mara Lúcia Cardoso, Ricardo Milan, Jorge Rein, Mirna Spritzer, entre outros. Como podemos destacar, as rádios alemãs foram grandes parceiras dos artistas brasileiros, oferecendo financiamento e a produção de peças radiofônicas e de arte acústica. *** Para compreender melhor esse quadro, talvez possamos chamar esses produtores de rádio no Brasil de radiomakers híbridos pois o hibridismo da cultura brasileira permeia o nosso pensar, o nosso fazer e o nosso viver.
A diversidade cultural e da natureza, a multiracialidade, o contraste social, as centenas de sotaques, as diferentes identidades e formas de viver, as várias necessidades e desejos compõem o mosaico sonoro de um país que se afeta, se impressiona e por vezes aceita como seu o que o mundo produz de pior ou de melhor. Um país que procura com dificuldade afirmar a pluralidade, assumir as suas várias temporalidades e entender as inúmeras sociedades que coexistem / convivem e formam o Brasil.
O desafio de transformar o rádio num espaço de criação, num lugar de escuta pensante começa necessariamente reconhecendo nossos disparates, a coexistência da abundância e da precariedade de nossos meios e de nossas idéias. É esse sentimento de incompletude, de coisa inacabada, que nos leva a improvisar, a criar. Apesar da precariedade e da falta de condições técnicas e operacionais, é preciso investir e realizar projetos que propiciem ações criativas e inventivas no rádio.
Experiências não como mera arte pela arte, mas como processo motor, com efeitos não apenas sobre a produção artística mas sobre o próprio rádio como aparelho de distribuição e comunicação. Isto parece utópico, mas como sabemos, muito já foi pensado nos tempos pioneiros do rádio, há mais de setenta anos, e muito já foi realizado.
Tais mudanças ocorreram através dos vários procedimentos artísticos que permitiram ou, melhor, formalizaram uma espécie de abertura para um "novo" mundo de sons, ruídos, músicas e, conseqüentemente, para novas atitudes de escuta, levando não apenas os artistas a uma outra relação com o material sonoro mas tornando possível outras escutas e desvelamentos de materialidades sonoras e materialidades radiofônicas.
Lembremos da música concreta, eletrônica, eletroacústica e acusmática - inicialmente desenvolvidas e realizadas no rádio -, do hörspiel e do neue hörspiel (peça radiofônica e nova peça radiofônica) alemães; das poesias concreta e sonora; dos documentários e features; entre outros. A minha experiência diz que a emergência, que a criação de uma rádio-arte no Brasil passa por um diálogo com os educadores, pesquisadores, comunicadores, radialistas, criadores sonoros, pessoas interessadas em pensar e trabalhar com som e que buscam, mesmo que de forma provisória e precária, por novas relações de produção e novas formas de ação e organização artística e política.
É certo que muitos profissionais do rádio nada conhecem sobre os princípios estéticos da rádio-arte mas é certo também, e muito significativo, que as artes acústicas vibram intensamente na alma de pessoas que foram educadas e formadas por uma longa tradição oral que está ameaçada pela brutal investida dos meios de comunicação de massa.
De certa forma, os pesquisadores, músicos, compositores, artistas sonoros, radiomakers e comunicadores populares poderiam perguntar que tipo de rádio desejamos falar, fazer e escutar, de que arte desejamos falar, fazer e fruir. Seria uma arte e uma prática de comunicação que nos encoraje a mudar o que pode ser mudado ? De uma arte que nos inquiete e nos instigue ? De uma arte que nos ensine a viver intensa, profunda e serenamente as diferenças, a pluralidade ? |